VÍRUS KM 137.

Publicado: agosto 2, 2014 em Uncategorized

Por João Oliveira*.

Ninguém poderia dizer de onde surgiu este vírus. Mesmo hoje, no ano de 2172 alguns ainda falam que deve ter chegado à Terra em um meteorito que caiu na lá pelos lados da Oceania. Fato é que seus efeitos na humanidade jamais serão revertidos. Já se passaram cinquenta anos desde do primeiro infectado ser descoberto e, até hoje, não existe uma cura plena para este mal ainda absolutamente terrível.

Devemos lembrar que nos primeiros momentos os infectados eram dados como desaparecidos porque desapareciam dos olhos normais. A alteração metabólica que acelerava as células também tornava todos os infectados virtualmente invisíveis já que seus movimentos mais lentos chegavam a 137 Km por hora. Ultra rápidos qualquer tentativa de ficar parado em um só lugar somente criava convulsões. Só os corpos eram encontrados após o tempo máximo de vida (de alguns minutos a, no máximo, três dias) de qualquer pessoa que tivesse contato com o vírus nos primeiros anos.

O envelhecimento celular ocorria (ainda ocorre, mas agora sob maior controle) de forma assustadora levando ao doente a uma falência múltipla dos órgãos em algumas horas. Lógico que isso também depende muito da idade da pessoa no momento da infecção. Um jovem poderia sobreviver por 72 horas, os idosos, no entanto, vão a óbito em minutos se não medicados imediatamente.

Com o surgimento das drogas de controle os infectados, agora, podem quase viver normalmente. A química consegue desacelerar o ciclo celular e, embora não destrua o vírus, permite uma longevidade quase normal aos infectados. Não há cura (esqueça isso) temos controle.

Mesmo com todos os cuidados para evitar áreas onde o vírus ainda está ativo ou medicamentos que fortalecem o sistema imunológico ainda estamos sob a praga do vírus KM 137 e, todos os dias, vemos mais e mais pessoas adentrando o sistema de tratamento mundial que foi criado especificamente para esta doença.

O que mudou em nossa sociedade com este vírus? Podia-se pensar que a doença sempre é ruim e que pode destruir uma civilização. Não foi exatamente isto que ocorreu com nossa espécie: aprendemos a aproveitar o melhor da situação.

Uma pessoa, no ritmo da infecção, dentro da medicação pode escolher produzir muito em sua área e finalizar projetos que antes seria impossível mesmo se vivesse muitos anos. A velocidade é tal que prédios são erguidos em poucos dias e, verdadeiras enciclopédias são escritas por uma só pessoa. Assim estamos avançando quando virtuosos escolhem produzir a viver muito.

Outra particularidade é a impossibilidade de dormir. Mesmo sob o controle medicamentoso nenhum doente dorme e, apenas isso, já dobra a capacidade produtiva. Acredito que a humanidade avançou muito com o surgimento do KM 137.

Uma corrente politica quer alterar o que já é comum. Proibir que as pessoas parem de se medicar para se aproveitarem da velocidade no mercado de trabalho. Os “normais” – não infectados – formam uma dura corrente que tende ao protecionismo da chamada normalidade. Eu não sou infectado, nem gostaria de ser, mas defendo o direito de alguém que abre mão do seu tempo de vida para deixar um legado pela sua produção.

Realmente é algo para se pensar em qualquer nível. Como podemos diferenciar o que é viver? Sim, pois tantas e tantas pessoas existem e, em algum tempo se vão, deixando apenas lembranças e, tantas outras, se permitem a deixar algo mais. Algo que ficará além da própria existência. Se fosse possível a você escolher viver muito e não produzir nada ou, viver menos e construir algo que sobreviva sendo útil aos seus semelhantes, o que escolheria?

Pensar sobre isso, sem pudor de escolher o que quiser, já nos permite entender os que deixam de partilhar seu tempo de vida com seus familiares para focar no trabalho ou, ao contrário, ver pessoas felizes sem nunca terem feito além do necessário para continuar existindo.

Os infectados têm escolhas também. Se medicados todos os dias podem chegar aos 80 anos é uma estimativa baixa perto da média atual de 130 anos mas, parando de tomar seus remédios para produzir, em alguns momentos, reduzem ainda mais drasticamente este período de vida. Sabemos de pintores que produziram centenas de quadros e faleceram em menos de uma semana numa escola de artes de Florença na Itália.

Quem sabe não haja necessidade de uma única escolha? Quem sabe podemos fazer as duas coisas, cada qual em seu tempo ou período de vida?

Apenas um detalhe é realmente importante: antes de decidir o que fazer com o seu tempo de vida, descubra o que é viver para você.

Fonte: ISEC News.

Acesso em http://www.isec.psc.br

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